Cerco midiático, agro-negócio e (pseudo)patriotismo anti-indígena no Brasil

28 28UTC Maio 28UTC 2008 at 15:04 (Sem Categoria)

A quem possa interessar,

Segue em anexo para a apreciação de todos, imagens dos indígenas de Raposa-Serra do Sol que não veremos nos telejornais. Evidências de como autoridades e defensores do “agro-negócio” vêm tratando as populações indígenas, os sobreviventes dos muitos massacres através dos quais se fundou este país chamado Brasil.


O racismo anti-indígena que vemos ser alardeado agora nos meios de comunicação (com um vergonhoso verniz de “neutralidade patriótica”) deixa clara a postura da elite agrária brasileira: esta herdeira das “capitanias hereditárias” e das “bandeiras” que atualmente, (e sempre em nome do seu progresso pessoal) ao mesmo tempo rasga a constituição e convenientemente se denomina “brasileira”.

“Brasileiros defendendo a soberania nacional da Amazônia”. Seria bom se não fosse trágico o fato de serem justamente estes ruralistas os próprios bastiões do chamado “progresso” que vem destruindo paulatinamente a biosfera. Para estes obviamente pouco importa ambiente ou conservação, pouco importa o futuro, uma vez que é a possibilidade lucro imediato que está acima de tudo. E é exatamente esta a mesma posição sustentada por setores de grande importância no Governo Federal, inclusive pelo próprio presidente: os indígenas são claramente vistos como um estorvo que, além de não contribuir para o “crescimento do PIB”, ainda têm a “ousadia” de lutar pelas terras em que viveram e (pelas quais) morreram seus ancestrais.


Junta-se ao coro dos “descontentes no poder” os militares com seus alardes frente a (absurda) possibilidade de um surgimento de “nações dentro de nações” jogando na vala comum quase um século de ações indigenistas de Rondon e seus herdeiros.

Mas…quem exatamente são estes militares, os supostos patriotas que, de repente, passam a se preocupar com a “Soberania Nacional”. Quem são estes que identificam uma ameaça nos índios que curiosamente há décadas são a grande maioria nas tropas militares que protegem as fronteiras Norte e Noroeste da Amazônia? Seriam esses alto-oficiais os mesmos que passaram pela “Escola das Américas”? Que colaboraram com a “Operação Condor”? Que trabalharam pela implementação bases militares estrangeiras no território nacional?


E já que tanto se fala de “Soberania Nacional” talvez seja uma boa ocasião para pensarmos também nessas organizações coronelistas paramilitares formadas de capangas, jagunços e matadores que sob as vistas grossas das Forças Armadas e Governos (Estaduais e Federal) há décadas controlam as zonas rurais (e por vezes urbanas) de municípios como Nonoai/RS, Juína/MT, Altamira/PA, Dourados/MS e Pesqueira/PE. Estes bugreiros contemporâneos que aterrorizam camponeses pobres e assassinam líderes indígenas – como os Kaingang, os Saterê-Naué, os Kaiapó, os Kaiowá e os Xukurú – dando a impressão que o Brasil é, de fato, uma terra sem lei.

Enquanto esses militares (supostos “patriotas”) se preocupam com as tais ONGs (mal intencionadas) na Amazônia, segue a pleno vapor a implementação da infra-estrutura para a pilhagem dos recursos hídricos e naturais por mega-corporações – como a americana Coca-cola (que vem indiscriminadamente comprando as áreas com nascentes sobre o Aqüífero Guarani em Santa Catarina), a norueguesa Aracruz (com sua rentável desertificação verde no Espírito Santo e no Rio Grande do Sul), a suíça Nestlé (que já controla boa parte das reservas hídricas do sul do estado de Minas Gerais e agora se arrasta para o Sul da Bahia) entre tantas outras mega-corporações estrangeiras consideradas inofensivas. Por que será que os nossos patriotas parecem não perceber a existência de nenhuma má-intenção em outros lugares não tão escondidos do Brasil?

Não nos enganemos: nenhum jornalista vai polemizar acerca destes assuntos; nada disso passará na televisão nesta próxima semana, como nada disso passou neste último mês: tudo o que vimos (entre a novela das 6 e das 9) foi o drama dos “bons” produtores de arroz da Raposa/Serra do Sol em um suposto litígio com índios (resolvido à anos na Justiça), a violência e a brutalidade de um kaiapó atacando um inofensivo engenheiro da Petrobrás ou a agressividade de um Macuxi jogando um copo de plástico contendo água na cara de um “comedido parlamentar”.

Hoje (como sempre) grande parte da população brasileira continua vítima de um cerco informativo. Agora como há cinco séculos os povos indígenas no Brasil são vítimas de todo tipo de violência física e simbólica – antes impulsionada pelo empreendimento colonial em honra a fé católica e a coroa portuguesa, agora levada a cabo em nome do lucro fácil e deste agro-business que se disfarça de (pseudo)patriotismo em uma terra onde, à poucas gerações atrás, nós e nossos ancestrais (europeus, orientais etc.) éramos os estrangeiros.

Não resta espaço para ingenuidade entre nossas dúvidas – seguirão adiante indiscutíveis e intocados os interesses obscuros pelos quais se movem estes ruralistas indignados e militares consternados tão bem acobertados pelos telejornalistas brasileiros?


Tratando-se de difamações e golpes contra as populações ameríndias, daqui por diante, o que podemos esperar? Será que veremos o dia em que serão oferecidas condecorações a jovens brasileiros que por ventura no meio da noite queimarem um índio?

Luiz Gustavo S. Pradella
Mestrando em Antropologia Social
Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas Tradicionais
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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Trabalhamos pra viver ou o contrário?

19 19UTC Maio 19UTC 2008 at 15:01 (Sem Categoria)

Frequentemente me pergunto se nós vivemos pra trabalhar ou trabalhamos pra viver.

O que vocês acham?

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Boaventura

16 16UTC Maio 16UTC 2008 at 0:16 (Citações)

Esse cara sempre traz coisas legais, eis uma que trata dos preconceitos, especismos, divisões, estratificação social etc.

“A unidade não tem porque ser homogênea e tampouco a diversidade tem que significar desintegração.”

O que se deve fazer não é incluir o marginalizado a sociedade, mas tornar a sociedade apta, respeitosa, assim como ele, a conviver. Incluir um indivíduo diferente por algum motivo na sociedade é ignorar as diferenças e isso não é respeitar, é escapar, fingir que não existe. A verdadeira inclusão ocorre quando aprendemos a conviver com a naturalidade que deveriamos ter. Se um indivíduo é diferente, é apenas na nossa perspectiva, pois na dele nós somos os diferentes. Deficientes, guardadas as proporções físicas ou mentais, deveriam ser tratados como todos os outros. Cotas para deficientes físicos é dizer que eles tem capacidade inferior a dos não-deficientes. Incluir na sociedade? Para que? Para destruir as diferenças? Para sermos todos iguais ao invés de apenas termos direitos iguais?

Vida a diferença com igualdade. Integralize a heterogeneização.

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